Onde estão as mulheres no ecossistema de inovação

A realidade do mundo analógico que ainda persiste na sociedade digital.


Por Ana Paula Debiazi Vicente

Fotos Divulgação


A rotina de qualquer mulher significa lidar com diversos desafios, desde a vida pessoal, cuidado com casa, família até a vida profissional. Neste último quesito ainda temos o desafio de desequilíbrio entre falta de oportunidades em diversos cargos e o desequilíbrio de salários entre os gêneros, ainda muito julgado pelos desafios da vida pessoal.


Toda pessoa, seja homem ou mulher, possui desafios em sua vida privada, porém para a mulher o maior deles é superar os estereótipos sobre a capacidade de balancear a vida privada e a vida profissional, assim como sempre foi superado para os homens.


Precisamos incentivar a sociedade a olhar a mulher como qualquer outro profissional, que possui capacidades e dificuldades e está apta a assumir o cargo que quiser. Que tenha instrução e pode fazer suas escolhas de como quer viver. Seja como dona de casa, seja em cargos de qualquer nível, por sua opção e não por obrigação.


A presença feminina vem crescendo em todos os setores e atividades, porém a desigualdade ainda está longe de ser superada. Estudo da Organização Internacional do Trabalho mostra que mulheres ganham em média 14% menos que os homens. Diferença que aumenta bastante quando se trata de cargos gerenciais. Segundo o levantamento, três em cada quatro dessas posições são ocupadas por homens. Dados de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), - utilizados no Panorama Mulher 2019 da Talenses e Insper - revelam que apesar de representarem a maior parte da população (51,8%), as mulheres ocupavam apenas 26% dos cargos de diretoria, 23% de vice-presidência, 16% dos conselhos e 13% de presidência.


Lideranças femininas no ecossistema de inovação representam uma minoria. O Mapeamento da Associação Brasileira de Startups feito com 3 mil startups no ano passado mostrou que apenas 12,6% tinham fundadoras. Segundo levantamento da empresa de inovação Distrito, entre os 36 fundadores de “unicórnios” brasileiros, startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, há apenas duas mulheres. E os fundadores das 21 startups candidatas a unicórnio em 2021 são todos homens.


No segmento de venture capital o número é ainda pior. De acordo com um estudo da International Finance Corporation na América Latina, somente 8% dos fundos de investimento possuem mulheres no comando. E o cenário de investimento em startups de mulheres piorou na pandemia. Dados do Crunchbase revelam que apenas 2,3% do total de aportes de capital de risco em startups no mundo em 2020 foram destinados às empresas fundadas por mulheres, enquanto em 2019 a proporção era sensivelmente maior, 2,8%.


“No empreendedorismo tradicional - no qual as empresas não têm em seu core a inovação - 46,2% das empresas são fundadas por mulheres. No ecossistema de inovação essa representação é de apenas 9,8%, sendo destes, 4,7 fundadas exclusivamente por mulheres e 5,1 co-fundadas por mulheres (fundação mista entre mulheres e homens)-, o que demonstra o quanto o empreendedorismo de inovação ainda é um ambiente muito restrito à presença feminina”, destaca o estudo Female Founders Report*, elaborado em parceria com a Endeavor e a B2Mamy.


De acordo com o levantamento, que questionou 400 fundadoras de empreendimentos inovadores, as startups fundadas por mulheres conseguiram receber apenas 0,04% do total dos investimentos do setor.


Entre as startups mapeadas pela Abstartups, 26,9% não têm mulheres no time e 15,1% têm metade do time feminino. Apenas 5,1% das startups é composta de 95 a 100% por mulheres na operação.


Segundo aponta o estudo do Boston Consulting Group (BCG), as mulheres possuem uma visão mais holística sobre a empresa, resultando assim em um retorno maior a longo prazo. Em complemento a isso, uma outra pesquisa, agora do McKinsey, fala que as mulheres têm, em média, 15% a mais de lucros porque são mais atentas aos detalhes.


As grandes corporações vêm tentando mudar esta realidade, tendo como metas ter 50% da equipe feminina nos próximos anos. Porém, esta inclusão precisa ser de forma justa, não basta contratar apenas mulheres, pois isso irá gerar exclusão do gênero masculino e novamente teremos um problema. Repetir os erros do passado não resolve. Precisamos encontrar formas de avaliar apenas habilidades e competências requeridas para o cargo/função, sem olhar cor, gênero, raça, etc.


Eu concordo com a inclusão e a tentativa de se ter uma equipe profissional nas empresas equilibradas, porém temos que ser leais e sinceras com nossos valores e buscarmos empresas que tenham os valores que buscamos enquanto pessoas. Temos que olhar os requisitos exigidos da vaga e ter a sinceridade de nos candidatarmos por estarmos aptas a exercer tal função e cumprirmos os requisitos na plenitude.


Temos o direito de não querermos viajar por causa de nossos filhos, ou de não assumirmos um plantão por causa de nossa rotina em casa, ou até mesmo de não querermos estar só entre homens pelo motivo que for. Mas também temos que ter a sinceridade em recusarmos um trabalho quando isso é exigido. Vejo que o mercado de trabalho é uma mão de duas vias, onde ambos precisam estar satisfeitos com as demandas e entregas. E isso vale para todos, independentemente de gênero. Temos que aprender a dizer “não” quando queremos dizer não, e a nos posicionarmos mediante abusos e piadas.


Sim, ainda temos um longo caminho a construir quando falamos em mercado de trabalho, e os números mostram que o caminho ainda é mais longo no ecossistema de inovação, mas mulheres como eu e muitas que conhecemos mostram que é sim possível alcançarmos nossos sonhos, desde que haja determinação e coragem.


Ana Paula Debiazi Vicente, CEO Leonora Ventures, economista de formação, pós graduação em administração de empresas, especialista em controladoria e MBA em gestão de empresas. Atuação de 15 na gestão administrativa e financeira no segmento de indústria e saúde. Há 4 anos atuando diretamente na operação e buildagem de startups. Foi COO de startups no mercado da Educação e Governo e COO em Venture Builder franco-brasileira atuando diretamente no desenvolvimento de startups.

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