Freada de arrumação. Lendo quadrinhos de gente grande.

“Falar e escrever sobre tudo sem abrir o espaço nobre ao agronegócio é como esquecer a criança na escola”


Por Adalberto Deluca e Fernando Barbosa

Fotos Marina Leonova | Julius Silver | Tom Fisk | Andres Ayrton | Santiago Sauceda González (Pexels)


Uma vez que estamos aqui, desfrutando desse espaço generoso, vamos destrinchar um pouco de curtidas, mordidas, aprendizados e, tristemente, até de guerra. Nos deem licença, apertem o cinto e vamos juntos.


Ler, falar, ouvir, escrever e, acima de tudo, entender!

Parece que o aprendizado não é estanque, com data marcada para chegar e pronto. Se somarmos o tempo que perdemos falando em crise, pensando em crise, debatendo crise e usássemos aplicando em conhecimento teríamos duas joias cobiçadas para desfrutar: o dia com mais de 24 horas e a vida esticada ao extremo para curtirmos (desfrutarmos sem dar likes) tudo que tanto gostamos e desejamos. Durante 2020, nos bombardearam com tragédias e ainda temperavam com mais uma ‘crise’ da economia que seria inevitável. Pois bem, 2021 acabou, agora de verdade, pois até o carnaval já passou e temos de falar bem desse ano passado, uma vez que a economia, tão ultrajada pelos paladinos e ‘especialistas’, foi bem, obrigado. Um crescimento de 4,6%, mesmo colocada metralhada o tempo todo,

é algo a se comemorar e muito! Como sempre há setores que não foram bem. Como sempre houve alguns vilões como a alta dos combustíveis, o dólar (esse merece um parágrafo a parte) e os aluguéis que viveram seus dias de infortúnio e provocaram ranger de dentes. Por outro lado, houve geração de empregos e expoentes como transportes que, vejam só, foi puxado pelo setor de viagens pessoais e de negócios. Quando se fala em empregos começamos a ver um certo túnel no fim da luz e é melhor se acostumar com isso. Senão, basta observar a realidade, deixando o coração meio que de lado, congelado por alguns instantes. Há muito se fala em ‘analfabetismo funcional’, um termo tenebroso, asqueroso e que retrata a situação de pessoas que tiveram acesso a uma escola de péssima qualidade, politizada, sem avanços mínimos para acompanhar tempos novos e desafiadores para os jovens. A resultante da equação é uma geração que chega ao mercado de trabalho sem conseguir interpretar o que lê. Se miséria pouca fosse bobagem esses mesmos jovens ainda encontram um mercado em marcha acelerada de automação. E o que isso significa? Menos empregos meramente braçais, mais necessidade de aprendizado contínuo. Mas - de novo - como aprender continuamente se lá na base você não aprender a interpretar? Então, teremos uma massa de desempregados ou subempregados em crescimento por um tempo, ou em número alto, estagnado que talvez pare de crescer, mas será grande. Quer inverter o túnel e achar a luz? Vamos considerar o lado iluminado da lua, onde um sem-número de novos sistemas, aplicativos e que tais absorvem um sem número de novos entrantes no mercado de trabalho para suprir a demanda da automação e redução de processos manuais. Tudo em nome da velocidade que a sociedade atual nos requer e impõe. Acontece que se pararmos no meio do túnel talvez a luz seja fraca, pois essa situação toda pode estar criando uma elite de profissionais e isso não é bom, pois cria uma bolha, onde se cria barreiras de entrada, proteção, corporativismos ou seja lá que nome se queira dar. O passado já mostrou isso, ou de onde surgiram as ordens e os conselhos de classe profissionais? Puf! Puf! Exclamaria um personagem de quadrinhos. Quase se perde o fôlego quando falamos de situações ruins. Então vamos tratar de dólar. Alto para você? Baixo para alguém? Se fosse um leilão estariam gritando quem dá mais, quem aposta mais... A verdade é que o mercado é um pai e uma mãe de ótima qualidade. As variações ocorrem para o bem na maior parte das coisas. Se a economia interna vai mal pela consequência dos lockdowns intempestivos, chame o dólar e peça para subir, assim ficamos competitivos lá fora e as exportações nos salvam. Se por outro lado temos uma melhora interna, busque o dólar e mande ficar quieto. Se os juros sobem e a economia (coitada!) ficar cambaleando sem beber, dê um susto no dólar para baixar mais ainda e ficar atraente e convidativo aos investimentos estrangeiros atrás de ganho fácil (e ainda se discute qual a profissão mais antiga do mundo...). Pronto! Receita de pá-vê. Traduzindo: belisca a onça e corre


Mordidas econômicas


Falar e escrever sobre tudo sem abrir o espaço nobre ao agronegócio é como esquecer a criança na escola. Baterá uma baita dor de consciência. E não é que de tanto falarem na exuberância do agronegócio parece que atraiu inveja! Em 2021 houve um recuo da atividade agropecuária provocado por falta de chuva, falta de planejamento e menos produtividade em um ou outro setor. Entretanto, rimando com a exuberância está a ignorância, não o palavrão e sim a falta de saber mesmo. Enquanto continuamos com a velha batalha para mostrar que até o ar respirado é agronegócio sabemos que em 2022 tudo não será como antes. O agro dá a volta pra cima, a pecuária se recupera e poderemos bradar, de novo, que um terço do PIB tupiniquim é defendido pelo castelo do Rei Agronegócio. E nem precisamos tomar seu tempo para explicar que nesse contexto está tudo que plantamos, criamos, comemos, vestimos, exportamos. E olha que até o PIB vem sendo objeto de muita discussão. Depois de tentar esquecer - calma não é música dor de cotovelo - que temos o tal analfabetismo funcional, eis que lemos esses dias um artigo de Roberto Elery, do site Mises Brasil, algo que alguns alfabetizados e crescidinhos gostam de vomitar (não leia isso antes da refeição e nos desculpe se causar náusea) dando conta de que “Não comemos PIB”, esse inclusive o nome do artigo. Pois bem. É inimaginável que gastamos gigas e teras de armazenagem de dados em plena era da tecnologia e ainda nos deparamos com indivíduos que não diferem alho de bugalho, chiclete de charrete. O colega discorre sobre esse fenômeno e fica claro como a ignorância engole a exuberância quando lemos sobre o não entendimento de que PIB começa com Produto e esse por sua vez é simplesmente resultado; e esse só existe quando duas forças se juntam. Seja suor e lágrimas, ou trabalho e capital, ou mão de obra e salário, plantar e colher, bater e soprar... Se é produto, então comemos sim. Todos os ‘ous’ que juntamos aqui resultam, de novo, em esforço e recompensa. E o que fazemos com a recompensa? Compramos comida abaixo de tudo (isso porque a pirâmide de Meslow coloca a necessidade fisiológica na base da pirâmide das necessidades humanas e se está na base, está em baixo) ou antes de tudo. Portanto, nobres leitores, yes!, nós comemos PIB. Outro dia mesmo, aqui nesse espaço, falamos sobre o que representam as microempresas para o Brasil, país continental, eterno país do futuro, com desigualdades cantadas em verso e prosa (até isso dá dinheiro!) mas acima de tudo o país das oportunidades. E não é que os números da macroeconomia nos trouxeram uma surpresa que impressiona em se tratando de microeconomia? A boa notícia é que batemos um recorde na abertura de novas empresas em 2021, o ano que não quer acabar. Foram 4 milhões de novas inciativas em 12 meses, segundo o Ministério da Economia, e isso traz consigo um contingente de boas novas desde a geração de renda familiar até a substituição do velho emprego pelo novo empreendedorismo, também descrito aqui como uma vocação em evolução entre nós, verde amarelos. E o melhor de tudo isso é que mudamos a feição se fazer harmonização, uma vez que no passado não tão amarelado pelo tempo abríamos novos negócios para fugir de uma crise pessoal, como o desemprego (ele de novo), por exemplo. Agora - também - abrimos as portas para tentar algo pessoal, às vezes inédito, às vezes franqueados. Enfim, essa é uma notícia a ser comemorada sim.


Numa boa prosa, uma coisa puxa a outra e não podemos esquecer do título desse artigo. Se observar bem você, quem teve a paciência de ler até aqui, poderá ver que ao falarmos de desemprego observamos finalmente que o atual estado das coisas não é sólido, nem líquido, quiçá gasoso. Temos uma série de fenômenos acontecendo nos últimos anos que permite ao Brasil experimentar os efeitos de uma freada de arrumação. Para quem não está familiarizado com a expressão, isso significa que ao frearmos intensamente um veículo sua carga se organiza e acomoda de tal forma que um espaço, antes exíguo, passa a ficar organizado e pronto para caber mais. Se paramos pela situação sanitária por outro lado descobrimos o rearranjo da economia liberal que está emagrecendo o estado brasileiro e escancarando as portas da esperança, proporcionando esse citado recorde de abertura de empresas através da mudança no formato e no tempo para se oficializar um empreendimento; também a estabilização do dólar, lá em cima, permite algumas lições importantes ao mostrar que na exuberância mora um perigo que pode ser fatal no que se refere a falta de cuidados com planejamentos, com poupança para dias turbulentos, com profissionalização de nossas fazendas, com o sentido mais extremo de parcerias, de fato. E os nobres amigos do campo sabem o que significam calos nas mãos e certamente terão alguns cuidados adicionais como compras antecipadas de insumos críticos, regularidade de negócios com os parceiros certos, maior clareza de necessidades de determinados investimentos imobilizados, com o avanço da tecnificação de processos e meios produtivos para redução de custos e eficiência produtiva, entre outras lições que determinadas ‘freadas’ provocam. Não usando freios, mas sim acelerando, estamos vivendo um momento fantástico com os investimentos bilionários em ferrovias e rodovias, mudando a cara do transporte caro que tivemos durante os últimos 100 anos. Isso reduz outros custos e ainda acelera a igualdade tornando o Brasil mais interior.


Também os investimentos em telecomunicação e robótica já mostram um segundo semestre com céu de brigadeiro. Agora imagina se as Eleições não atrapalharem o andar da carruagem e ainda com a Copa do Mundo se dando só lá durante as compras de Natal então podemos olhar pra frente, soltar o freio e aproveitar os espaços que as últimas freadas já nos proporcionou. Seja com a inovação nossa de todo santo dia, necessária e urgente dependendo do grau de óculos que usarmos, seja juntando forças e criando laços para novos negócios, dignos de parceiros de bem e com apetite para saborear as vitórias que tivermos braço para alcançar.


Quem estiver em paz não queira guerra com ninguém*


Poderíamos parar por aqui de deixar cada parágrafo a ser deglutido e entendido, mas se tem algo que coloca muita força no freio e sempre provoca medo é a famigerada guerra. Mesmo que distante, essa última, ainda sem mocinhos e bandidos claramente definidos, sendo essa uma questão de informação e de opinião, há que se pensar em consequências, pois elas podem ser econômicas, sociais e até humanas, dado que os maiores perdedores sempre são os inocentes que não querem e não sabem começar um conflito. Olhando a miúdo temos possíveis consequências comerciais tendo em conta que ambos os países são nossos clientes e fornecedores. E isso reflete nos insumos que importamos para a agricultura, o que pode trazer consequências ainda não mensuradas chegando até a paralisação de plantios. Também reflete no emprego, por razões óbvias diante do um terço do PIB gerado pelo agronegócio, o que reflete na tal base da pirâmide onde menos emprego é menos comida na mesa. O pobre Produto Interno Bruto também pagará o pato quando olhamos as exportações que geraram novas empresas, lá do recorde do ano passado ou ainda em possíveis fugas de capital que nesses momentos migram para ativos mais sólidos. Temos ainda uma possível alteração no preço de combustíveis que torna tudo mais caro, contrariando a lógica de uma economia estável que precisa de menos inflação. Resumindo a ópera, de novo uma coisa puxa a outra e que não seja para pior, para baixo. Quem tem fé reza, quem pensa se previne, que não sabe levante a mão e pede ajuda. Quem pode, salve quem puder. Todos juntos em um novo ano (ele começou, né?) de novas esperanças, sem porta mágica, mas com muito trabalho, suor e conquistas!


*Paráfrase da linda canção do Chorão.


Adalberto Deluca e Fernando Barbosa são consultores de empresa, sócios da Know How Consulting

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