A gestão de riscos ESG para empreendimentos imobiliários

Um caminho sem volta e todos ganharão com isso.

Por Franco Cristiano

Fotos Divulgação


Pesquisas recentes informam que atualmente 85,4% dos gestores de investimentos do Brasil consideram o potencial impacto de questões ambientais, sociais e de governança corporativa em seu processo de investimento (Fonte: 2ª Pesquisa de Sustentabilidade - Anbima). E isso se deve ao fato de que a boa governança associada às temáticas ambientais e sociais, garante a sustentabilidade dos investimentos, evitando perdas financeiras e reputacionais. A bem da verdade é importante ressaltar que os tribunais brasileiros e outros diversos pelo mundo possuem o firme entendimento de que investidores e agentes financiadores em geral podem ou devem ser solidariamente responsabilizados, por exemplo, por dados causados ao meio ambiente. O que, como mencionado de início, podem se traduzir em severas perdas de ordem financeira e reputacional. Implementar e fortalecer os programas de compliance e gestão de riscos ESG torna-se, portanto, fundamental para quem pretende criar e desenvolver bases sólidas para suas atividades empresariais. E mais do que isso, para quem pretende agregar valor aos seus produtos e serviços.


A sustentabilidade ambiental, econômica e social, atualmente representada pela sigla ESG (Environment, Social and Governance), por sua vez, pressupõe um comportamento responsável das empresas ao longo de suas trajetórias. Não se trata, efetivamente, de algo novo, mas algo que a partir de agora se torna fundamental para quem pretende existir no mercado. Atuar com integridade dirigida não apenas para evitar, mas para combater e reduzir a degradação do meio ambiente e as condições que desestabilizem a economia e as instituições sociais e públicas é algo vital para os nossos dias e sua inobservância pode levar negócios, literalmente, à morte. Em relação ao mercado imobiliário, a questão deverá ser tratada ainda com mais severidade. Ainda que atualmente pouco se fale do assunto no setor (ou pelo menos não tanto como se deveria), é fato que a atuação comprometida com os padrões ESG é, e será a cada dia mais, uma exigência, inclusive por entidades financeiras, conforme tem apontado resoluções recentes do Banco Central sobre o assunto.


Os empreendimentos imobiliários, por sua natureza e estrutura intrínseca, são potencialmente capazes de impactar o meio ambiente natural, a exemplo da supressão de vegetação nativa ou lançamento de águas pluviais em corpo hídrico, assim como, está destinado a impactar o meio ambiente artificial (a cidade) e a coletividade de pessoas no entorno do empreendimento, como o impacto no sistema de saúde pública, de segurança pública, dentre outros. A aprovação de um empreendimento expõe ainda, de forma drástica, as empresas do setor aos riscos provenientes das relações com agentes públicos ou mesmo aos riscos associados com práticas severamente passíveis de punição, como a lavagem de dinheiro. Os esforços para aprovar um empreendimento em áreas ambientalmente sensíveis podem ser totalmente perdidos em função de impedimentos técnicos e legais, consumindo recursos preciosos sem a obtenção de qualquer resultado. Desconsiderar o entorno, a paisagem urbana, as pessoas, os animais, no desenvolvimento de um projeto, pode propiciar impactos sociais negativos e depreciar o valor do próprio produto imobiliário. A ausência de governança, a submissão às práticas corruptivas, literalmente, pode implicar em gravíssimas responsabilidades de ordem penal, o que muitas vezes pode acontecer de forma quase invisível para a alta direção da empresa, ainda que esta venha a ser responsabilizada.


As hipóteses de submissão aos riscos negativos (downside risks) existem em números significativos e devem ser gerenciadas por modelos de gestão de riscos ESG de forma sistêmica e eficiente. O mapeamento e o tratamento dos riscos devem ser algo primordial para as empresas do setor, inclusive, com a previsão de medidas de contingência associadas a cada risco. Por outro lado, não se pode deixar de dizer que a gestão dos riscos pode ser algo igualmente valiosa na detecção de oportunidades de mercado (upside risks) ainda na vertente ESG. Observar o comportamento social e se preocupar efetivamente como ele, por exemplo, pode resultar em percepções de mercando ainda não exploradas por um setor costumeiramente pouco inovador.


A adoção de políticas claras relativas a manutenção da integridade dos recursos ambientais podem, além de agregar valor à marca, impactar positivamente na vida financeira da empresa que, além de encontrar condições de financiamento mais adequadas às suas necessidades, conforme já prometem algumas instituições, ainda poderá converter em ganho os serviços ambientais que possam ser disponibilizados e extraídos do desenvolvimento do projeto imobiliário, a exemplo da produção de créditos de carbono, o que foi ressaltado pela COP 26, a pedido do próprio governo brasileiro. A aplicabilidade de critérios ESG pelas empresas brasileiras deverá, cada vez mais, ser uma realidade e o setor imobiliário deverá seguir estes passos, como já aconteceu no agronegócio. Atuar de acordo com padrões ESG significa ampliar a competitividade do setor e fomentar padrões ambientais, sociais e de governança mais elevados, o que é bom para todos, na medida em que o conceito de lucro deve ir para além do conceito monetário tradicional. Há de se concluir, portanto, que no mundo atual, no qual as empresas são acompanhadas de perto pelos seus diversos stakeholders, a margem de qualquer questão ideológica, a gestão de riscos ESG é a tradução de sustentabilidade e solidez, custos mais baixos, melhor reputação no mercado e maior capacidade de se relacionar com incertezas e vulnerabilidades e o mercado imobiliário não poderá e não deverá ficar à margem do conceito, especialmente, em razão da sua larga e imprescindível importância para a vida em sociedade, para a vida nas cidades.

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